PRESERVANDO A MEMÓRIA DO MALUCO BELEZA
Um dos melhores fãs-clubes
que um ídolo poderia desejar é, sem dúvida, o Raul Rock Club. Até certo
ponto, a biografia de seu fundador, Sylvio Passos, se confunde com a do
próprio Raul Seixas. Inaugurado em 28 de Junho de 1981 – isso mesmo, a
data do trigésimo sexto aniversário de Raul. Além de manter uma
excelente memorabília de seu super-herói – a qual merece um parágrafo só
para ela daqui a pouco – Sylvio possui grande parte das gravações
inéditas e particulares de Raul (sobre as quais também logo falaremos), e
teve a suprema honra de dar apoio moral ao seu ídolo nos tempos
difíceis dos últimos anos. Basta dizer que, Raul, ao ser perguntado
sobre datas e eventos de sua carreira, costumava dizer “Ah, falem com o
Sylvio Passos, ele sabe de mim melhor que eu mesmo!”.
Curiosamente,
Sylvio é um raulseixista temporão. Nascido no bairro paulistano de Vila
Maria em 1963, passou a adolescência comandando fãs-clubes de Led
Zeppelin, Jethro Tull e King Crimson, antes de gostar de Raul ou de
qualquer outro artista brasileiro. No fim dos anos 70 veio o estalo e o
grande interesse por rock brasileiro, incluindo o grupo Terreno Baldio
e, claro, Raul. “Ouvi o LP Krig-Ha, Bandolo!, aí veio como uma porrada”,
resume Sylvio, que passou a tirar o atraso.
Em 1981, Sylvio
publicou em alguns jornais um anuncio pelo qual procurava tudo o que se
referisse a seu novo herói, inclusive contato pessoal com o próprio. E
funcionou: Luis Antônio, presidente do Beatles Cavern Club, passou-lhe o
telefone e endereço de Raul, no bairro paulistano do Brooklin. “Liguei,
ele estava bêbado, pensou que eu fosse o Silvio Santos e disse que
topava aparecer no programa.” A confusão de Raul deu lugar ao espanto de
Sylvio, quando descobriu que o cantor, além de morar num sobrado algo
modesto, era pessoa das mais simples convidando Sylvio para almoçar e
lhe servindo pessoalmente macarrão – com as mãos. Desde então Raul
manteria contato com Sylvio até dois dias antes do ídolo falecer.
Mais
que fã, Sylvio revelou-se grande irmão e amigo. Inclusive o Raul Rock
Club foi o primeiro fã-clube brasileiro a editar um LP, no caso Let me
Sing my Rock and Roll, reunindo gravações não incluídas em discos
normais de Raul – ao lado de Canto Para Minha Morte , fácil de ser
encontrada (no álbum Há Dez Mil Anos Atrás), mas que entrou neste LP a
pedido do próprio Raul. E isto foi apenas o começo: Raul sempre
empenhado em se perpetuar, confiou a Sylvio todo seu acervo de fitas
(inclusive rolos, gravado nos anos 50-60, antes mesmo da invenção da
fita cassete) com demos (incluindo sua primeira composição, uma
balada-rock, por volta dos 18 anos), ensaios, aparições em televisão,
sobras de estúdio e muito mais. Sylvio e Raul planejaram reunir essas
gravações numa série de cinco LPs intitulada O Baú do Raul – até o
momento foram editados apenas dois, o primeiro com o mesmo título,
lançado em 1992 pela Polygram, e o segundo lançado em 1994 pela
Gravadora Eldorado com o título Se o Rádio Não Toca.
Este espaço é
realmente insuficiente para falarmos do acervo do Raul Rock Club que,
além das gravações, inclui manuscritos, livros, discos de vários
artistas e roupas (inclusive os sapatinhos que usou quando bebê e o
manto de mago da época dos LPs Krig-Ha, Bandolo! e Gita), sem falar no
primeiro violão de Raul e de inúmeras fotos, muitas tiradas pelo próprio
Sylvio.
Com um presidente tão dedicado, não se admira que o Raul
Rock Club tenha aproximadamente 4 mil sócios (“Dos oito aos oitenta
anos e das classes mais variadas, do garoto de rua ao alto executivo”,
diz Sylvio), tendo chegado a reunir 20 mil na época da morte de Raul.
Realmente, podemos resumir a trajetória de dedicação e sucesso do RRC,
bem como o entrosamento entre fã e artista, a duas frases cantadas pelo
próprio Raul “Nunca se vence uma guerra lutando sozinho” e “Sonho que se
sonha junto é realidade”.
Ayrton Mugnaini Junior
Revista Shopping Music Especial #7
Maio de 1998.
O RAUL ROCK CLUB
Poucos
fãs-clubes têm uma vida tão longa como este Raul Rock Club, que, mesmo
após dez anos da morte do artista, continua em franca atividade. O Raul
Rock Club – primeiro fã-clube dedicado ao astro – conta hoje com um
cadastro de aproximadamente 4.000 pessoas em todo o Brasil. A entidade,
que se confunde com sua figura principal, o presidente Sylvio Passos,
consegue manter viva a memória e o imaginário raulseixistas, que é o
modo como os fãs de Raul se autodenominam.
Sylvio é um paulistano
nascido na Vila Maria, que desde cedo se apaixonou por coleções. Quando
criança, colecionava pipas, selos, dinheiro, peões, figurinhas e seu
hobby era pegar livros de um vizinho que tinha vários filhos e, enquanto
o resto da turma estava em cima das árvores roubando ameixas, Sylvio se
divertia com as figuras das páginas que explicavam o cosmo e o ser
humano. Mas sempre fazendo clubinhos e juntando pessoas e no colégio
ligado ao pessoal do grêmio e agitação estudantil, como festas em que
fazia o som – era Dj –, e só punha discos de rock’n’roll.
Com a
frase “It’s only Raul Seixas but I like it”, emprestada dos Rolling
Stones, explica sua paixão pela música de Raul. Nem sempre foi assim,
porém. De tanto ouvir música brasileira na casa paterna – a mãe
alagoana, fissurada em Jackson do Pandeiro e Luís Gonzaga; o pai
pernambucano, fã de carteirinha do Nelson Gonçalves –, Sylvio gostava
mesmo era do que vinha de fora: o rock inglês e americano. Chegou a
fundar vários fãs-clubes, como o do Led Zeppelin, do Jethro Tull e o
fracassado clube do King Crimson, que conseguiu a desagradável marca de
contar apenas com dois sócios. Quando se desradicalizou, como costuma
dizer, trocou todos os seus discos e pôsteres dessas bandas para montar a
União dos Roqueiros Brasileiros, a URB. Foi quando começou a cair em
suas mãos material do Terço, Terreno Baldio, Som Nosso de Cada Dia e
Raul Seixas. O mesmo Raul que tocava direto nas rádios bregas, e para
quem ele torcia o nariz. Porém, quando ouviu a música Metamorfose
Ambulante (de onde tiraria posteriormente o nome para o fanzine do
fã-clube), Sylvio mudou de opinião. E mudou a ponto de transformar a sua
URB em Raul Rock Club, homenageando, com esse nome, o Elvis Rock Club,
que o próprio Raul fundara tempos atrás, em Salvador.
Um “escolhido”
O
“Silvícola”, como era carinhosamente chamado por Raul, foi conhecer o
ídolo quando este se mudou para São Paulo. Sylvio lembra até hoje do
endereço: rua Rubi, número 26, no Brooklin. Havia conseguido o telefone
de Raul com o presidente do fã-clube Beatles Cavern Club, Luís Antônio.
Pensou, pensou, encheu-se de coragem e ligou. Do outro lado da linha,
Raul estava embriagado, confundiu-o com Sílvio Santos, e já foi logo
dizendo que fazia o programa. Desfeito o mal-entendido, convidou Sylvio
para ir até sua casa. Raul e Kika receberam o tímido rapaz, que não
queria nem almoçar. Acabou almoçando. Uma hora, foi ao escritório da
casa, que tinha uma decoração estranha – com uma boneca sentada num bidê
–, uma porção de frases pintadas na parede e muitas fotos espalhadas.
Numa das fotos, Sylvio se reconheceu – tinha sido tirada num show no
extinto teatro Pixinguinha, quando os fãs subiam para cantar Sociedade
Alternativa. Mostrou a foto para Raul, que lhe respondeu
enigmaticamente: “Você está aqui porque é um dos escolhidos”.
O
encontro virou amizade e Raul passou a carregar Sylvio por todos os
cantos, como roadie e amigo. A vida dali para a frente nunca mais foi a
mesma. Sylvio largou a namoradinha, os estudos (queria ser psicólogo ou
jornalista) e passou a ser reconhecido na rua devido à sua convivência
com Raul. Com uma notoriedade inesperada, da noite para o dia, e
dedicando-se a leituras místicas e esotéricas, acabou conhecendo a
loucura. Como ele mesmo diz, tem o fã que pira, queima todos os discos
do Raul e entra para a Igreja Universal do Reino de Deus. Com ele
aconteceu algo semelhante: perdeu o contato com a realidade e passou
dois anos na Clínica Tobias, onde foi internado pelo próprio Raul.
Quando
recobrou a lucidez, retomou a vida, casou-se e foi trabalhar como
vendedor do Círculo do Livro. Com a normalidade voltaram também as
atividades do fã-clube, e a convivência com Raul até os últimos dias do
ídolo.
Escreveu um livro, intitulado Raul Seixas – Uma Antologia,
em co-autoria com Toninho Buda, parceiro de Raul, e organizou outro,
Raul Seixas por Ele Mesmo, ambos da editora Martin Claret.
A sede
do fã-clube funciona em sua casa , que ele chama de “Cúpula do
Relâmpago Dourado”. Atualmente, a “Cúpula” oferece aos seus sócios
material relacionado à vida de Raul. Tem discografia, fotos e estudos
sobre o artista. Aqueles que se associarem recebem uma foto autografada
de Raul e uma carteirinha do fã-clube, tornando-se assim um autêntico
raulseixista e passando a receber em casa duas publicações trimestrais:
um bolteim sobre as atividades do fã-clube e um magazine de nome
Metamorfose.
André Bertoluci
Revista Caros Amigos Especial #4
Agosto de 1999
O início, o fim e o meio.
Em
1981, Sylvio Passos, então com 17 anos, procurou Raul Seixas para
pedir-lhe material diferente, inédito, para seu fã clube “não
convencional”, onde os admiradores iam bem mais para discutir as ideias
do que para trocar figurinhas do ídolo. Raul gostou da ideia e doou logo
uma pilha de objetos pessoais. O jovem, impressionado, comentou: “Desse
jeito eu vou é fazer um museu seu!”. E, de alguma maneira, estava
certo.
O Raul Rock Club logo passou a receber muitas outras peças
por intermédio do artista, da família, das ex-mulheres e de amigos,
formando um acervo de cerca de cinco mil itens. São fotos, cromos,
roupas, troféus, letras, diários, manuscritos e diversos outros objetos
que, hoje, Sylvio guarda em sua casa, esperando a oportunidade de
acomodar em um lugar adequado à visitação pública. “Não gosto de chamar
de museu, soa muito antiquado, prefiro memorial”, diz ele. Perguntado
sobre quais seriam as três peças principais, Sylvio se apoia numa música
do ídolo para introduzir a resposta: “Três é um número bom, é o início,
o fim e o meio!”. Lista, então, alguns dos objetos com os quais convive
há muitos anos. Começa com o violão dado pela mãe de Raul quando ele
tinha 14 anos e que, inicialmente, segundo a própria D. Maria Eugênia,
ficou meio de lado.
Aquele violão, pouco depois, serviria para
criar suas primeiras músicas e fazerem soar o que Sylvio acredita serem
os primeiros acordes iniciais do rock “legitimamente brasileiro”. Já da
maturidade do roqueiro, é citada a capa de mago com que Raul teria
desenvolvido seu misticismo e ensinado ao amigo e parceiro Paulo Coelho.
“Dessa capa saíram bons frutos e, posteriormente, um montão de
dólares!”, brinca Sylvio. A peça escolhida do final da vida de Raul é um
fúnebre, mas atesta a intimidade que partilhou com Raul nos seus
últimos oito anos de vida: é o pijama que o baiano usava na noite em que
morreu.
Mais do que um colecionador, Sylvio Passos se tornou um
nome central para todas as pesquisas atuais sobre Raul Seixas. Nesta
segunda (17), por exemplo, recebeu em sua casa um amigo americano de
Raul, Daniel Dickason, que trazia uma interessante correspondência
trocada com Raul entre 1969 e 1971. “Ele se queixava muito do governo e
da dificuldade de gravar bons discos no Brasil”, conta Daniel, lembrando
que, na época, o roqueiro ainda era um funcionário da CBS, não o mito
de poucos anos depois.
Os originais dessas cartas acabam de ser
incorporados ao acervo para o qual Sylvio busca abrigo. “Já me
ofereceram espaços em Salvador, mas acho que a Bahia está muito mais
ligada naquela coisa de axé, que não tem nada a ver com Raul. O memorial
tem de ficar em São Paulo, cidade que ele escolheu para viver”,
argumenta. Nem bem termina a frase séria, Sylvio ainda não resiste a uma
saída típica do ídolo. “Se não for aqui, pode ser em Nova York…”.
André Domingues
Diário do Comércio
21 de agosto de 2009
RAUL ROCK CLUB/RAUL SEIXAS OFICIAL FÃ-CLUBE
Caixa Postal 12.106 – Ag. Santana
São Paulo – SP – CEP: 02013-970 – BRASIL
www.raulseixas.org